terça-feira, 4 de dezembro de 2012

A luta e a glória das mulheres angolanas!



Há 6 meses estou em Angola. E como sempre,sou tocada pelas coisas que me chamam atenção, pela maneira em que elas se apresentam à minha frente. As minhas observações neste post, não são mais do que meras observações empíricas, podendo tê-las apresentadas de maneira equivocada ou não, por não ser uma especialista no assunto para falar com tanta propriedade. Mas, me permito a compartilhá-las.

Presto bastante atenção aos movimentos das mulheres por onde passo, por acreditar que de um modo geral, são elas que imprimem ou incutem a cultura de uma determinada sociedade, seja de maneira ativa ou passiva.  E as mulheres de Angola me chamaram atenção em vários aspectos aos quais merecem respeito. De um modo geral são mulheres com uma grande preocupação pela subsistência da família  e por isso são vistas politicamente como  importantes para a construção e a manutenção da paz duradoura, nesse momento.

A trajetória do tempo das angolanas, me pareceu que foi muito triste. Muitas histórias de privações, escravizações, abusos sexuais,  trabalhos braçais, sofrimentos e perdas. A história do homem angolano também não foi diferente, uma vez que lhes foram "amputados" o direito da liberdade de escolha, da expressão e de viver dignamente, durante séculos, submetidos a trabalhos escravos. Amputaram-lhes a capacidade de acreditarem em si e de encontrarem sentido na vida, em projetos a longo prazos, por acreditarem que a vida por ser dura, tem que ser curta e que deveriam aproveitar somente o "aqui e agora,  e nada mais.

De acordo com as pesquisas que eu realizei sobre a posição da mulher na sociedade angolana, durante o período colonial, os portugueses separaram os homens das suas famílias durante três séculos de tráfico de escravos e depois por intermédio de um sistema extensivo e firmemente bem orquestrado de trabalho forçado nas plantações. Como consequência, historicamente as mulheres tinham que fornecer alimentos e satisfazer as necessidades básicas para si e suas crianças.
 
Dos impactos negativos durante e pós guerra na mulher, constata-se um incremento substancial de agregados familiares chefiados por elas e um grupo cada vez mais crescente de mulheres vitimas de minas.  O constante fluxo de pessoas deslocadas para Luanda causou o crescimento desordenado da cidade. Parte dos musseques, são actualmente caracterizados por casas transitórias e falta de infra-estruturas. Muitas nos musseques, vivem muitas mulheres pobres com crianças, e a grande maioria dos agregados são chefiados por elas. 

Segundo observações de terceiros, um numero substancial não fala nem entende português apesar da crescente necessidade do uso do português como língua veicular. Poucas são alfabetizadas ou não têm educação académica formal. Estas mulheres sobrevivem por intermédio do exercício de actividades comerciais de pequena escala e o cultivo de pequenas parcelas de agricultura peri-urbana. Para elas sobrevivência econômica requer longos e árduos dias de trabalho, e viajar longas distâncias até aos mercados urbanos. Elas não têm outra alternativa se não deixar os seus filhos sozinhos em casa, com pouca ou nenhuma supervisão ou de levá-los nas costas, amarradas por uma tipóia de tecido.

Apesar da configuração da família ser sustentada por um  sistema matriarcal, no que se refere a subsistência, vivem num sistema ainda "submissas" ao autoritarismo machista, que inventou até o "o dia do homem", em seu calendário semanal, sem contar com a poligamia que dá o direito legitimado pela sociedade, ao homem de ter mais de uma mulher.

No senso comum, observei em todas as camadas sociais, que trata-se de um povo alegre, que aprecia festas, músicas , danças e flertes, mas, me chamou a atenção em não ver casais  trocarem carícias, ou andarem de mãos dadas, principalmente entre os casados em ambientes públicos. Me pareceu que o homem casado, ou a mulher (não sei)....é arisco(a) a esse tipo de manifestação pública, embora entre quatro paredes, são felizes, segundo informações de nativas. Em programações sociais, geralmente os homens casados, se apresentam sem suas esposas ou companheiras.

As teorias analíticas da existência, de Heidegger, afirmavam que os sentidos das coisas se dão nas experiências, na relação entre consciência e mundo . Quando tudo está em seu lugar, nos sentimos no lugar também. Quando não estão, nos perguntamos quem somos nós? ninguém muda, se não sabe onde está.

Muitos valores ou conceitos sobre morte, vida, casamento, amor, filhos, sexo, família, foram absorvidos nas gerações que se seguiram após anos de colonização, como determinantes culturais. Em algumas situações, esses determinantes culturais atuam como bengalas para sobrevivência física e psicológica. A morte deixou de ser uma desorganização na vida, para ser uma abertura de sentido para a vida de quem fica, sendo os funerais, motivos de comemorações inclusive.  Passaram a valorizar a vida, quando aceitaram a idéia da morte.

O sexo passou a ser uma moeda de troca, em algumas regiões, onde a família participa até das negociações. Isso não se aplica a toda sociedade, é claro.

Para as mulheres, o casamento perdeu a  concepção metafísica de outras sociedades, onde deixaram de acreditar que o papel dá direito a garantia da felicidade e do amor eterno, principalmente quando sabem que estão destinadas a uma relação conjugal compartilhada.




Uma cena comum, nas ruas de Luanda são mulheres de classe social pobre,  levando seus filhos bebezinhos, amarrados com uma tipóia nas costas, indiferente as condições climáticas de sol ou chuva, para suas atividades profissionais. As crianças já nascem vítimas de uma condição de miséria, mas ao mesmo tempo, agraciados por ainda terem uma mãe, que independente da sua ignorância, em saber dos malefícios físicos e psicológicos que podem causar aquela criança amarrada nas costas,  resistem em deixá-las  abandonadas na rua, ou mesmo em casa, ao acaso do destino. Muitas delas abandonadas por homens, que orgulham-se em terem mais 3 ou 4 mulheres, achando que elas se devem dar por satisfeitas, em terem tido a "honra", de parir um filho deles, porém, cabendo-as a assunção das responsabilidade que possam surgir a partir do acasalamento. Claro que isso, não refere-se a todos os homens angolanos, porque os mais jovens vem quebrando essa tradição machista e tendo uma visão mais consciente das responsabilidades de uma família,com vínculos afetivos com uma mulher somente.



Além das crianças nas costas, elas levam geralmente uma bacia na cabeça um embrulho qualquer, com produtos para negociarem na rua, muitas vezes com uma carga de capacidade com  mais de 20kg e uma ou duas cestas nas mãos carregadas de coisas, enquanto os homens, desfilam nas ruas, com seus corpos esbeltos, em trajes modernos,com uma mochila nas costas, headphone no ouvido. As sexta-feiras comemoram o "dia do homem".


Não é à toa que elas têm as ancas e pernas fortes e bonitas, para darem suporte as suas necessidades diárias de sobrevivência.

 Ao ver essas crianças, sendo levadas para cima e para baixo, fico a imaginar qual seria a  representação simbólica, para elas que são carregada nas costas, como também para as mães que carregam essas crianças.
Como será para essas crianças, que vêem  o  mundo  “de  lado”, já que a sua mãe impede a visão do que está à sua frente? essa visão bloqueada é concebida como proteção, ou como limitação para elas, que levarão por toda a sua vida?...
Como será para essas crianças lidarem com um mundo, onde parece que elas são carregadas de forma invisível? indiferente às suas necessidades, aos seus anseios?....nem sempre a mãe sabe o que elas sentem, por que não existe um contacto visual...embora, muitas crianças, também são vistas de maneira invisível e indiferentes, vagando pelas ruas,  abandonadas.
Como será para essas mães, lidarem com os "pesos" que ela se sentem obrigadas a levarem todos os dias?....até que ponto as crianças não se tornam também um "peso"?
Literamente, me parece, que elas levam as crianças nas costas, também como um fardo ao qual elas são obrigadas a sustentarem como consequência das suas decisões na vida.Mas, ao mesmo tempo é um fardo que elas lutam com unhas e dentes para defendê-los até o fim. Nunca vi uma angolana, maltratar um filho. Parece que além do instinto materno, elas tentam poupar aquelas crianças de mais revezes na vida, assumindo-lhes as suas sobrevivências.

É uma vida diária muito dura. Imaginamos que é um povo que tem uma história marcada por lutas, desigualdades, guerras, poder do ricos, discriminações, o que ineitavelmente levam a seguir destinos na vida muitas vezes chocantes para algumas sociedades.
 
Lembrei-me de um artigo, do blogue do Hugo Studart,  o qual mencionava que nos meados do Século XVIII as mulheres não valiam quase nada em toda e qualquer parte do mundo. Até que Jean-Jacques Rousseau causou frisson por toda Europa com um romance, Julia — ou A Nova Heloísa (1761), no qual a heroína provocou emoções e conquistou a empatia dos leitores em sua busca pelo direito de livre escolha afetiva, dando início à discussão sobre a emancipação da mulher e ajudando a pavimentar o caminho para aquilo que, anos mais tarde, ficou conhecido pela expressão Direitos Humanos. Daí, eu me pergunto: O que será que Jean-Jacques Rousseau, estaria pensando acerca da condição da mulher angolana em pleno século XXI?

As mulheres angolanas, recebam toda a minha admiração e carinho, principalmente  pelo seu grande senso de humanidade no coração, que tanto faz a diferença nesse país..


6 comentários:

  1. Receba mais uma vez a admiração pelo seu post Mary Queiroz.

    Incrivel a sua capacidade de observar e sintetizar aquilo que vemos, mas não sabemos expressa ou definir. Parabéns!

    Bjs

    S

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  2. Ana Maria Sardinha5 de dezembro de 2012 01:45

    Amiga....muito interessante esse outro olhar do mundo.
    Parabéns.
    Bjs

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  3. Fazia tempo que não lia um texto de blog conciso em que em tão poucas palavras refletisse tantas verdades de tantos mundos... Ao se referir sobre a realidade das mulheres de Angola, Mary, na verdade você nos fez "viajar" sobre às muitas realidades físicas, geo-políticas (inclusive de realidades tão próximas aqui no Brasil), e de realidades "internas"... Mas, sendo mais focado nos pontos fulcrais do seu texto e na realidade de Angola, gostaria de lhe agradecer em nome da sociedade civilizada como umm todo, por nos permitir compartilhar sua visão inteligente, feminina, humanista, desenvolvida e acima de tudo, gostosa de se ler... Escreva mais Mary, ou seria "Mary, a nova Heloisa"??? rsrs... Bjs

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  4. Mary.....não et conheço, mas devorei o teu blogue....comecei a ler esse post e fui seguindo tua trilha, até o primeiro post. Só tenho a te dizer que és ESPETACULAR. Mostra uma inteligência incomum além de uma beleza exponencial, com todo o meu respeito.

    Chamo-me Alexandre Matias e trabalho na Rede Record de São Paulo. Vou te enviar um e-mail para mantermos contacto.
    Bjs

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  5. Arnaldo Martins Paredes Fonseca12 de dezembro de 2012 19:12

    Olá Mary!
    Gostei bastante do teu post. Há 3 anos estou em Luanda e confesso que nunca parei para ver a realidade descrita, de maneira tão evidente e sensível. Tu além de gira , és bastante inteligente.
    Beijokas

    Arnaldo Fonseca

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  6. ARTUR PRAXEDES MENDES15 de dezembro de 2012 14:32

    É exatamente isso, Mary Lindaaa.....tu descrevestes exatamente a triste realidade das mulheres de Angola. Mas, sugiro que escrevas sobre a mulher brasileira, com sua beleza, charme,alegria e ousadia. Dá pra ser?
    Bjs

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